Se caminhares pelo sublime jardim de Seteais, e suspirares perante tamanha beleza, o eco devolverá outros seis ais, em honra do amor pela sua princesa…
Ora conta a velha lenda que na mística Sintra de 1147, por altura da conquista de Lisboa aos Mouros, foi D. Mendo Paiva destacado para ocupar o Castelo de Sintra.
Entre os primeiros cavaleiros a subir a serra, D. Mendo de Paiva descobre uma passagem secreta, ao entrar descobre então o bravo Cristão, a beleza singela que haveria de dar nome a Seteais.
Anasir, formosa princesa moura, de traços profundos e misteriosos, tentava escapar acompanhada de Zuleima, a sua velha aia.
Surpreendida pela presença do intruso, solta um suspiro em forma de Ai.
- Ai.., querida Zuleima, fomos descobertas …
O Cristão encantado com a sublime forma perfeita da jovem princesa, demonstra convictamente a intenção de não a deixar escapar, colocando-se à sua frente. Com o medo a transbordar dos olhos azeviche, assustada não contem o segundo suspiro.
- Ai … que temo pelas nossas vidas…
Zuleima, aia dedicada, segura as delicadas mãos da jovem princesa e ocultando a verdadeira razão, suplica-lhe que não suspire daquela forma.
- Minha ama, suplico-vos, contenha os suspiros para seu bem.
A esta altura o exército cristão aproximava-se da passagem secreta, era possível ouvir o ruído de seus passos por entre a folhagem húmida.
- Ai … não existe salvação possível para nós…
Fascinado com a jovem, decide D. Mendo de Paiva faze-la sua prisioneira, e esconde-la junto com sua aia, numa casa de sua pertença, na região de Sintra. A jovem, relutante, recusou-se a subir para o cavalo do Cristão, este perante a ousada recusa diz-lhe:
- Se não subires para o cavalo a bem, a vossa ama ficará aqui e serás levada à força.
A ameaça provoca novamente o desespero da jovem, que apesar das advertências da sua aia, não hesita em libertar o quarto Ai…
Pelo medo acedeu ao pedido do Cristão, seguiu acompanhada de Zuleima para o refúgio onde passaria o resto de seus dias, mantida em segredo, longe de tudo.
O tempo foi passando. A princesa enamorou-se do Cristão, que tanta atenção e cuidados lhe dedicava.
Certo dia, sentiu-se no denso ar de Sintra a inquietude e o desassossego. Ouviram-se barulhos no exterior da casa, alguém se aproximava, quem seria?
Temeu Zuleima que fosse o noivo da princesa Anasir, que tivesse regressado para se vingar da traição de sua noiva, que fugira e coabitava com um Cristão. Com receio do pior, decide a aia Zuleima revelar o maldito segredo da princesa…
- D. Mendo de Paiva, temo pela vida de Anasir, ao nascer a princesa foi amaldiçoada por uma velha feiticeira… morrerá no dia em que suspirar o sétimo ai.
A princesa sentia-se intrigada, com toda a preocupação em torno dos seus Ais, curiosa como era insistia com Zuleima que lhe revelasse o segredo…
- Ai … Ai … porque não me contam o porquê de tanta preocupação? – Foram este o quinto e o sexto suspiro, que saíram dos rubros lábios de Anasir.
O sétimo e último Ai, saiu de sua boca ao mesmo tempo que entrava o punhal do noivo enciumado em seu coração.
D. Mendo de Paiva, não mais recuperou da perda de seu amor, perdido na dor de sua perda, converteu-a em ira, tornando-se o mais terrível e implacável perseguidor de Mouros.
Por: Diana V. para Fábrica de Histórias